Poesia

A Poesia alcança as fadas, encanta a chuva na madrugada, acompanha os ébrios nos dormentes e se mistura à solidão nas calçadas.

6 de maio de 2013

Do Coração (Conto)




O horário foi marcado há duas semanas, seria às 15 horas.
Aline retirou a folhinha do calendário, suspirou aliviada e apreçada,  teria que se arrumar. Entrou no chuveiro molhou os cabelos, deixou que a água penetrasse bem neles e esfriasse um pouco sua cabeça que parecia ferver. Movimentos rápidos aceleraram seu banho.
Escolheu o vestido do primeiro encontro, era de cor rosa bem suave, com  a saia evasê.  Entrou rapidamente nele, secou os cabelos, caprichou na maquiagem e diante de um grande espelho sentiu certa alegria, aquela que toda mulher satisfeita com a própria imagem sente..  Seus cabelos longos e pretos caiam sobre os ombros cobrindo um pouco o decote, os olhos amendoados castanhos escuros, o corpo apesar dos seus trinta e seis anos de idade era bem delineado e proporcional.  Apesar de toda sua beleza Aline sentia-se apenas um projeto de mulher. Talvez  ao fim de toda esta angústia voltasse a se sentir mais valorizada em sua autoestima.
Os sapatos teriam que ser baixos, não conseguia dirigir de saltos, mesmo assim levou um par para calçar ao descer do carro, queria estar elegante.
Antes de sair Aline olhou de relance para o final do corredor e viu a porta de um dos quartos de seu apartamento recém pintada na cor creme, ainda exalava um cheiro de tinta fresca, esboçou um sorriso, fechou a porta e seguiu até o carro.
Já no carro sentia seu coração bater apressadamente, ligou o som para tentar se descontrair um pouco. No CD do Ozzy Osbourne procurou a música Mama I´M Coming  Home.
O Trânsito fluía bem. Desejou encontrar todos os sinais abertos. Acelerava muito ao longo das avenidas sem se descuidar da sinalização. Nada poderia comprometer sua chegada. No centro  da cidade tudo  lhe parecia bonito, até mesmo os muros  pichados com aqueles desenhos agressivos . O dia estava claro e revelador.
Quanto mais se aproximava do seu encontro, sensações se sucediam em seu coração, momentos de tensão, calafrios, euforia, Seu rosto também recebia tudo isso com um rubor intenso. Parecia fogo adolescente.
O CD reiniciava.
Chegou ao local.  Manobrou o carro em direção à guarita do estacionamento, se esqueceu de retirar o cartão de entrada, engatou a ré e agora sim, retirou o cartão e entrou. Sentiu-se um pouco mais tranquila e agradeceu à Deus por ter chegado bem. Em seguida desceu do carro trocou de sapatos, pegou sua bolsa e dirigiu-se a portaria do prédio. O Elevador chegou rápido.  Logo estaria diante da realização do seu maior sonho. Nada lhe traria maior felicidade. Chegou ao andar indicado,  caminhou um pouco até uma das portas, abriu e entrou.
Lá estava ele, os olhos negros e úmidos, parecia ter saído do banho, um cheirinho maravilhoso. -Chorou, Aline chorou também, lágrimas da mais pura alegria depois de tanto tempo de sofrimento, correrias, e dissabores. Agora seus corações eram acalentados. Tremendo um pouco Aline retirou a manta azul que o cobria, queria senti-lo mais perto do peito. Acariciou sua face rosada e olhou para o alto como em uma prece e agradeceu novamente à Deus.
Enfim se concretizou todo o processo de adoção. Augusto era o seu nome. Assinou alguns papéis para cumprir mais um pouco de burocracia, tudo agora era apenas felicidade.
Deixou que os profissionais se despedissem dele enciumada, não queria perder nem mais um minuto da sua presença, sua vontade era  sair dali correndo, tinha um medo  inexplicável de que algo acontecesse e a fizesse perder tudo o que havia conquistado. Sua frustração pelo fato de não poder dar à luz, fez de sua vida um mar de tristeza.  Recordou a primeira vez em que o viu,  prematuro, perdido dentro das roupinhas, enfrentando todo o desconforto daqueles aparelhos. Tudo aconteceu quando visitava uma amiga no hospital. Seguindo um instinto, a sua vontade era de passar no berçário também, adorava crianças.  Uma enfermeira lhe informou a situação do bebê. Soube logo que por vários motivos narrados, iria para adoção.  Sentiu-se envolvida e apaixonada por ele, queria lhe dar toda a proteção.  Começou ali uma luta demorada.
 Agora porem, tudo era passado.  Entre beijinhos e adeusinhos eloquentes, saiu orgulhosa e feliz com seu amorzinho nos braços.

No  carro, o aconchegou dentro do Moisés, e com grande carinho beijou seus pezinhos de filho do coração.

Lourdinha Vilela


                                                    



Esta é uma postagem antiga, alguns de vocês já conhecem. Ando  sem tempo, por isto estou    apresentando  novamente. bJs. Pesso que compreendam logo estarei com novas postagens.
                                                      
                                       https://www.youtube.com/watch?v=dvNXF7aGP               

                                                     


18 comentários:

  1. Que conto maravilhoso e surpreendente! bem apropriado para a semana que antecede o Dia das Mães, homenagem às Mães de Coração.
    um abraço

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  2. Linda e comovente. Adorei!! Final desejado, faz bem!! beijos,chica

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  3. Que maravilhoso conto Lurdinha!
    Pena que há tanta burocracia e demora na adoção!
    Mas valeu a pena, ter essa alegria e tanto amor para dar!
    Beijos amiga,
    Mariangela

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  4. Texto mais do que lindo, Lourdinha!
    Alegria e amor a todas as mães de coração.

    Beijos :)

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  5. Um texto pleno de amor.
    Tocou-me profundo, na alma,
    passei por momentos semelhantes!

    Beijos, Lourdinha,
    da Lúcia

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  6. Boa noite
    Lindo!
    Um lindo fim semana, coberto de muita paz e amor! abraço amigo
    Maria Alice

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  7. Amiga lourdinha, ficarei ausente este final de semana, talvez só terei tempo para postar, por isto desde já as minhas felicitações pelo dia das mães. Desculpe o recadinho pronto.
    “O amor de mãe é algo indiscutível, em qualquer situação que ele tem que se manifestar transforma uma simples mulher numa leoa cheia de força para defender sua prole, por isso, o amor de filho, por mais forte que seja jamais superará o amor de mãe." (Luis Alves)
    Para quem é mãe ou não, FELIZ DIA DAS MÃES! Afinal, todos nós tivemos a sorte de sermos gerados(as) no ventre materno da nossa mãe.
    Abraços com carinho da amiga Lourdes Duarte.

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  8. Que lindo texto. O amor de mãe é o mais sublime que existe.
    Que seu fim de semana seja regado de muito amor.
    Beijos.

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  9. OI LOURDINHA!
    EU NÃO CONHECIA ESTE TEXTO, MAS MESMO QUE JÁ O HOUVESSE LIDO O FARIA NOVAMENTE COM MUITO PRAZER POIS É LINDO E TOCANTE.
    ABRÇS
    http://zilanicelia.blogspot.com.br/

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  10. Nossa, amiga, passei aqui para uma visitinha e me deparo com esse conto lindo, sublime, emocionante!! Quase sem condição aqui de comentar!

    Sou mãe do coração e teu conto mexeu muito comigo... Tem algumas similaridades com minha (nossa) história. Eu tbm encontrei minha joia rara num hospital em péssimas condições. Tbm fui levada por um estranho instinto a conhecê-la. Tbm me foi narrada uma história de horrores sobre aquela que senti de imediato ser minha (sempre fora). Tbm passei (passamos) por uma árdua luta até tudo se concretizar. (de certa forma a luta ainda continua). Tbm contei a nossa história um dia em forma de relato... Uma história de amor vivida por nós, e desamor da ‘outra parte’

    Que mais posso dizer? Que amei!! Sua escrita revela a pessoa doce que é... Parabéns amiga!

    Um beijo enorme!

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  11. Oi Sueli,
    Estas histórias de amor sempre se encaixam de alguma forma em nossa própria história. E o amor tem estes dois lados, o de extrema felicidade e o outro que pode trazer grande tristeza, recheado de decepção e angústia. Mas no final o amor verdadeiro sempre vence e se supera em tudo.
    Que bom que você gostou. Agora te admiro muito mais. Ser mãe do coração é mais difícil, que ser mãe natural.É ser nobre de coração.
    bjs.
    Grande abraço.

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  12. Querida Lourdinha, que conto lindo e pleno de emoção. E que música maravilhosa, parabéns por tudo! Beijão!

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  13. Feliz semana, minha amiga!
    Paz e Luz!

    Beijos :)

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  14. Lourdinha, fico muito feliz que você tenha reproduzido seu conto aqui, para que eu tivesse a oportunidade de lê-lo! É um conto lindo, emocionante, que toca, mexe com nossos sentimentos. Tenho amigas que vivem a situação de Aline, desde a angústia de não poder dar à luz até a alegria do encontro com um bebê que, de alguma forma, sempre foi seu!
    A verdade é que, para quem crê em Deus, haverá sempre um propósito em tudo...
    Lindo, lindo este conto, estou encantada!

    Um grande beijo, e um lindo final de semana para ti!

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  15. Obrigada.
    Verdade susy, o amor é algo divino por isto ele é abrangente, superior, e torna-nos cativos.O amor no coração das mulheres tem várias faces, é carregado de energia, vitalidade,piedade, paixão e compaixão.Ele se multiplica, se humilha, detém-se, avança, espera,protege.Dom de Deus.
    Tenho profunda admiração por estas mulheres, que se tornam mães do coração.E se doam enquanto recebem em dobro as alegrias por amarem tanto.

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  16. Aahhjj Lourdinha! Que texto mais lindo! Eu amei.
    Me revirei pensando em vários finais. Fiquei MUITO surpresa com o final!
    Muito bom mesmo *_*
    Beijão!

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  17. Que bom que você gostou Andressa.
    Obrigada amiga. bjs.

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