Poesia

A Poesia alcança as fadas, encanta a chuva na madrugada, acompanha os ébrios nos dormentes e se mistura à solidão nas calçadas.

19 de outubro de 2013

Abrigo


O que me prendeu a você
não foi apenas o seu olhar
furtando o meu olhar
muitas vezes esquivo
querendo não te olhar.
Não foi apenas o seu sorriso,
fazendo o meu sorriso despertar.
Não foram apenas suas mãos,
a me carregar
por um céu de nuvens claras ,
e pelas ondas do mar azul  voltar.
Não foram apenas suas doces  palavras,
dignas de um poeta,
que espera o luar
prá se inspirar.
O que me prendeu a você
Foi tudo isso!
E mais que isso...
Foi a certeza, de que estarias
Sempre comigo
E que e serias eternamente
O meu  abrigo

Lourdinha Vilela



17 de outubro de 2013

Descaso





Não cultivo a tristeza,
ela é quem me quer cultivar.
Sou pétala frágil
me desmancho no ar

Passo a passo
Sigo seus passos
pra descansar
no seu abraço

O que fazer neste espaço,
entre a procura e o descaso,
se vives a me desprezar?
Vem então a tristeza, o meu coração, ocupar

Lourdinha Vilela







15 de outubro de 2013

Como o vento


                      


Na euforia do vento,
atrevo-me- transcender.
Quero juntar-me ao som
ao movimento,
quando envereda
túneis e alamedas
por entre a mata ciliar.

Soar, ressoar
Somado ao rumor do rio.

Transportar folhas,
flores e cores,
sementes,
à terra úmida
à esperar

Lourdinha Vilela.


foto Lu


12 de outubro de 2013

Foto- Lú Vilela.

As paisagens mais belas? Muitas vezes só conseguimos vê-las, dentro de nós mesmos,
nas nossas lembranças.
quando  a saudade traz de volta.

10 de outubro de 2013

Vícios

                                                                         Imagem do Google



A mesa estava posta. Os dois filhos aguardavam,inquietos, enquanto a mãe, ia e voltava  da copa para a janela  da sala que dava para a rua.

Clara achou melhor, que não esperassem mais pelo pai.

Sempre acontecia assim aos domingos.  Aquela mesa arrumada com muito carinho, toalha branca, travessas, flores,  tudo o que de melhor  uma mulher é capaz de fazer para agradar seus filhos e seu marido. Porém uma expectativa  que sempre frustrava  aquela linda mulher .

Almoçaram silenciosos. 

Clara serviu a sobremesa. Um sabor amargo, não deixou que ela a saboreasse com gosto.  De Vez em quando, os meninos viam lágrimas no rosto da mãe.  Foram para a sala de TV.

Após algum tempo,  ouviram a freada brusca do carro do pai que voltava sabe-se lá de onde, mas com certeza de algum bar.  Por mais que a situação se repetisse, a família não se acostumava, e era sempre motivo para sentirem o coração apertado,  como se algo faltasse  para preenche-los de vida.

Clara era uma mulher recatada  e acreditava que um dia aquela situação pudesse  reverter-se  e muitas vezes calava-se para  não tornar o ambiente desagradável aos filhos, mesmo quando Fábio, seu marido,  sem motivo algum, a não ser pelo pior deles, o de estar embriagado, criasse um conflito, algo que ela mais temia. Assim o tratava como se nada tivesse acontecido, amparando-o, escutando suas repetidas conversas, palavrões, risos e até choro. Uma transformação de água para vinho, que nesses momentos ela preferia engolir e sufocar. Logo ele  caia em sono profundo  e acordava outro homem, o mesmo    por quem se apaixonara.

Naquele dia porém, os filhos aguardavam Fábio para participar da festa do Dia dos Pais. Eles estavam ansiosos para que chegasse o domingo. Era uma festa muito bonita que acontecia todos os anos no colégio, mas pelo horário de sua chegada, sabiam que não daria mais tempo.
 Mais uma decepção, e as carinhas de tristeza cortava o coração da mãe. Há muito  não se divertiam juntos.  Deixaram de comparecer em vários compromissos,  entre eles, festas de aniversário, datas  de comemorações religiosas e escolares de grande importância e quando  compareciam, eram acompanhados apenas pela mãe.

Na  sala as crianças assistiam à um filme. Fábio entrou sem sequer cumprimentar os filhos. Mudou o canal de forma brutal.
 O mais velho resmungou :
– Poxa pai, estava no final do filme!
E o mais novo teve a infeliz ideia de dizer:
-É pai já estava no epilógo.
 Fábio  voltou-se para os filhos, furioso.
-Por  que acham que eu vou perder o futebol, para que vocês assistam a um filminho qualquer?  - Além do mais, o que estão fazendo na escola, que eu pago tão caro, e não aprendem  a falar.- Não é epilógo é epílogo. Epílogo, entenderam?!

Os meninos se encolheram assustados com a atitude do pai. Clara veio da sala , correndo e encontrou o marido furioso, esbravejando, gesticulando, para cima dos filhos...
 Foi a gota d´água. Seguro-o pelos braços, e uma forte discussão começou entre os dois.
-Não toque nos meus filhos. Disse  ela ao marido, colocando toda sua força na voz e nos braços. Desabafando sua mágoa, falou de suas decepções,  de  sua carência, enfim de tudo o que perderam juntos, em nome daquele vício que estava ganhando campo, comprometendo  a felicidade da família.
Caminharam para o quarto do casal, ainda em discussão. Em determinado ponto, Fábio, atirou o copo que até ali não largara, contra o espelho do armário. Calaram-se finalmente. Um silêncio doído, evocando outros sentimentos. Ele entrou no chuveiro. Pela primeira vez a mulher ousou desafiá-lo.

 Clara  olhou o  espelho   trincado.

Momentos depois ela  o observava, jogado na cama, o braço estendido em direção ao chão, e como  sentisse uma enorme pena, ajeitou-o para cima da cama. Era um homem bonito apesar da idade. Sentia que ainda o amava muito e sabia do amor dele por ela.  Não entendia, tanto sonho jogado fora. Antes era tudo diferente, eram um casal perfeito. Sentia agora na face as lágrimas de medo, incerteza e de saudade.

Amanheceu.

O sol vencia as cortinas e penetrava sutilmente no quarto, trazendo a claridade. Pardais em bando, entoavam uma canção frenética, saudando a manhã.

O espelho refletia como um mosaico a    imagem do casal abraçado.

Nova trégua, na batalha entre o rancor e o amor.

Lourdinha Vilela