Poesia

A Poesia alcança as fadas, encanta a chuva na madrugada, acompanha os ébrios nos dormentes e se mistura à solidão nas calçadas.

1 de agosto de 2013

Brilhos e Brilhos



Um jovem de classe media alta,  se encontrava agora naquela  rodovia  de Minas Gerais,  indo  ao encontro dos pais, como se buscasse abrigo seguro. Um grande  lamento,  era tudo o que vivia neste momento, uma angústia que o frustrava, apesar  de ser um empresário de grande prestígio, de levar uma vida de muito conforto, fruto   não só de sua grande performance na  área profissional, mas também do   berço, que o fazia alvo de grande cobiça.

Felipe  seguia pensativo ao volante, na estrada que o conduziria à fazenda dos pais.
Havia se divorciado há pouco e encontrava-se exausto pelo longo e desgastante processo litigioso .  Por sorte ou não , não tinha filhos. Sua ex-mulher levou uma vida de princesa ao seu lado,  gastando todo seu dinheiro, em joias viagens e futilidades.   Felipe sentia-se como se fosse o Banco particular de sua mulher. Quantas vezes suspeitou do amor, que ela dizia ter por ele, na verdade queria brilhar, atrair a atenção de todos para si, e de certa forma brilhara destacando-se  na alta sociedade  , sempre ocupando as  páginas dos melhores jornais, hora por seus vestidos caríssimos, hora por suas façanhas nas viagens ao exterior. Sempre em foco na mídia, carregando o seu nome..

 A noite chegou , logo entraria na estrada de chão, chovia torrencialmente e os  problemas, chegaram mais rápido do que o esperado.  O para-brisas, parecia não suportar  a quantidade de água, além dos granizos. A garrafa de uísque,  era sua única companhia, e ele agora lançou mão  de sua ajuda para se acalmar um pouco,  sabia, não encontrar por  aquelas  bandas algum tipo  de punição, ainda mais debaixo de chuva à noite.

O barro, denso, fazia o carro deslizar. Não conseguia tirar Síndy da  mente. Este era o nome de sua  ex-mulher. Seu olhar de lince, sua esperteza, sua extrema vontade de tirar dele tudo o que pudesse. O sentimento , parecia não contar, também foram poucos anos, entre amor e ódio. Sentia-se  desprezado e usado como um objeto de consumo.Poderia oferecer a ela muito mais que dinheiro,  um amor de verdade.  Mas este objetivo não fazia parte do universo da mulher  , para ela só a riqueza do marido fazia diferença.

Bastante alcoolizado, ele já não conseguia identificar a estrada, apenas seguia em frente. Lágrimas aqueciam o seu rosto.
O carro, rodou bruscamente e bateu em um barranco, Felipe, desmaiou.

O latido de cães, o acordaram, dois cavaleiros, olhavam curiosos , um deles desceu do cavalo e bateu no vidro.  O dia começava  a clarear.

- Moço, moço. falou o mais velho dos  homens. Felipe  levantou o olhar e agradeceu à Deus por estar vivo. Abriu a porta,e se levantou ainda tonto.
- O Senhor está ferido na testa, precisa de ajuda, vamos até minha casa,  precisa de um curativo, disse o velho.

Tentaram tirar o carro, mas não conseguiram. O velho  propôs  levá-lo até à casa ,  e traria um caminhãozinho para rebocar o carro.
Felipe não encontrou outra alternativa.  Durante o trajeto, soube que o velho era um ex  empregado de seu pai, portanto já o conhecia de longa data. Se sentiu melhor com esta notícia, ao menos estava entre amigos.

Ao chegarem à casa, Felipe foi apresentado à mulher do Sr. Salvador, sim este era o seu nome uma mera coincidência. Logo a mulher, veio com uma toalha morna, limpando os ferimentos e colocou uma espécie de emplasto de ervas dentro de um pano alvo, que logo ficou verde , e o imprensou em sua testa.
Minha filha vai trazer um café. Disse a mulher ,  deixando a sós , ele e a moça, que lá no fundo da cozinha, areava panelas, que brilhavam ao sol  na janela acima da pia  de cimento queimado. Ficou impressionado com tanto brilho vindo daquelas mãos delicadas. Ela o olhava de relance com aqueles olhos verdes, sob a franja loira. Uma linda garota. Deveria ter seus vinte anos.
-Espere só um pouco moço, disse a garota, a água está quase fervendo.
-Como se chama? ele perguntou ainda impactado por aquele olhar.
-Sandy, disse ela
-Sindy?, lembrou-se da mulher.
-Não Senhor, Sandy, de Sandy e Júnior, meus pais adoram a dupla, daí...
-É um lindo nome, e a sua beleza também não deixa nada à desejar.
-Moço é melhor o senhor parar por aí.Veja meu pai está chegando!.
-Desculpe, eu sei, ele trouxe o caminhão, que irá rebocar meu carro na estrada
.
Uma buzina, rouca e fraca, o acordou daquela momento, levantou-se e seguiu para o porta...
-Moço , o café. Sandy o chamou.
Voltou e recebeu da garota uma xícara branca, sem pires, com o café que borbulhava.
Novamente fitou aquele olhar de esmeraldas. Os dois tremiam agora.
- Obrigado Sandy, repetiu- Sandy não é mesmo?

Saiu ao encontro do Velho.
No caminho para a fazenda de seu pai, conversou muito com o Sr. Salvador, sempre entrando em assuntos pertinentes à sua filha aos quais o velho desviava para não dar intimidades ao moço.
Chegaram à fazenda. O pai de Felipe, estranhou a forma de sua chegada, logo veio  também a mãe que o abraçou calorosamente. Mais estranho ainda, foi não dar tanta importância àquele abraço, não como imaginava na noite anterior, seu coração parecia aquecido agora. Os olhos de Sandy  provocara um incêndio dentro dele.

Ao ser reconhecido pelo antigo patrão, Sr. Salvador sentiu um certo orgulho pelo reconhecimento, de tantos anos de dedicação à família de Felipe.

Na mesma semana , logo após ter recuperado, o carro, Felipe voltou ao Sítio do pai de Sandy, com o pretexto de pagar pela gratificante acolhida.
-Não moço, não se preocupe , foi um grande prazer.
-E Sandy ? Perguntou pela garota com um certo receio.
-Ela, está no povoado, nas aulas de artesanato. Deve estar chegando.
-Posso oferecer-lhe uma carona , preciso ir ao povoado e na volta posso pegá-la, não  me custará nada.
-Bem Moço, por mim está certo, mas garanto que ela não virá com o senhor . Disse o velho conhecendo os brios da filha.
Ao menos vou tentar. Disse ele.
 A garota já se encontrava a caminho da casa. Filipe parou o carro e ofereceu carona. Sandy o reconhecera. Trazia nas mãos umas bonecas de palha de milho, mimosas e ao mesmo tempo desengonçadas. De forma alguma entraria no carro  de cor preta, do moço da cidade.
-Vamos Sandy  o sol está muito quente, disse ele.E ...seu pai me autorizou.
-Estou acostumada. E continuou caminhando.
Enquanto a seguia, utilizando apenas  as  segunda e primeira marchas do seu carro, Felipe, se encantava com o andar  tímido e suave da moça, como se ela pisasse em algodão. Lindas pernas sob um vestido esvoaçante de seda  com florzinhas miúdas ,brancas e amarelas. Era uma visão linda , algo de pitoresco em contraste com o verde  e as flores amarelas dos ipês que marginavam a estradinha de chão.
 E  assim prosseguiram até chegarem  à casa.

-O Sr. tinha razão. Falou ao pai, e ele sorriu.
Mesmo assim , tornaram-se frequentes as visitas de Felipe à Sandy, e logo o namoro  se transformaria em noivado.O amor entre os dois  parecia tão sólido como se já se conhecessem  há muito tempo.

Felipe voltou à fazenda dos pais, para comunicar a sua decisão.
-Não sente medo meu filho.  Falou a mãe preocupada. Um noivado assim, tão apressado. Não teme sofrer novamente, não conhece direito a moça, vivem em mundos diferentes. Poderá sofrer  várias consequências.
-Tenho sim minha mãe, O  medo de perdê-la, mas agora acredito que não vou errar. Vou sair da Capital , vou investir nas nossas fazendas,  não deveria ter saído daqui. Preciso de um pouco de paz, e esta paz somente encontrarei aqui. ao lado de Sandy. Ela é uma grande mulher, dedicada, afetuosa, sincera além de linda. E tem mais...
- Você precisa ver o brilho! ,disse com muito  ênfase
-Que brilho  meu filho?
- O brilho das panelas....
- Que panelas , que importância tem isto.A mãe parecia não entender.
-É que,  se a Sandy , cuida tão bem, até mesmo das panelas de sua casa...
  Imagino o quanto melhor, irá cuidar de mim.

Lourdinha Vilela

20 de julho de 2013

Aos amigos




Um pouco de céu
Um pouco de mar
Um milhão de estrelas pra contar.
Queria um poema pra festejar
Com muitos amigos estar.
Poderia no papel o céu  pintar,
Na poça da chuva  criar um mar,
E as estrelas no meu colar,
O poema estou a citar
Mas amigos ?
Ah! Amigos não posso inventar!


Lú Vilela

Ter amigos verdadeiros,
é ter uma corrente 
do mais fino ouro
e em cada elo
ter a certeza
de não estar só.

Feliz dia do Amigo  
E a certeza da minha gratidão.

18 de julho de 2013

MATURIDADE






Quando criança gostava de contornar as sombras  das árvores
Criadas à  partir  dos reflexos do sol e, ou da lua
Com uma varinha traçava seus galhos,dentro das  sombras
E   desenhava pássaros e frutos.
Chegou o vento
Pássaros arrojaram  voos
Os frutos agora maduros ,caíram, caíram.
Mas ficaram as sementes. 

Lourdinha Vilela

imagem do google.

14 de julho de 2013

Sábias formigas



        Duas formiguinhas faziam o seu trajeto sorridentes, enquanto filosofavam sobre à própria vida.
E uma disse à outra: - Ei amiga, esta  é a última viajem de hoje, logo vai escurecer.
-                              - Verdade, hoje o dia foi muito proveitoso, não tivemos chuva, e deu para trazer bastante alimento, o celeiro está cheio de coisas gostosas, mas confesso, estou um pouco cansada.
                                - Bem amanhã poderemos descansar um pouco, Ufa!!!
                             
           Neste instante avistaram um par de botas bem sujas, uma ao lado da outra, e levantando o olhar observaram que acima da bota, haviam duas meias, e duas pernas. Claro não tinham dúvidas, era um homem sentado no banco. Mas que tristeza! A cabeça muito baixa, dizia tudo sobre o seu estado. Aos poucos gotinhas caíram sobre elas, e uma delas falou;
                                - Corra amiga, que vem chuva. E correram para debaixo do banco.Mas as gotinhas vinham aos poucos, uma a uma.
                                 - Não é chuva não, disse a mais experiente delas. Ele está chorando.

                                                                                 

                                 - E está dizendo coisas.disse a outra; Vamos subir no banco para escutar?
                                 - Vamos sim que sabe poderemos consolá-lo.
        E o homem se lamentava aos prantos, pedindo à Deus que o levasse, para junto Dele que não aguentava mais o peso de sua vida, que carregar tantos problemas estava demais para ele. e queria morrer para fugir de tudo.
                                  -Pobre homem! Exclamaram as duas como se fizessem um coral de vozes bem fininhas, como  que tentando sentir a mesma dor.
                                  - Não consigo entender o ser humano. disse uma, agora agarrada à calça do pobre, como  se a abraçasse. Deus nos deu este corpo tão pequeno e mesmo assim conseguimos carregar cem vezes mais que o nosso próprio peso. Deus nos mantém vivas, trabalhando para cumprir nossas tarefas. Construímos túneis, procuramos alimentos, cuidamos da segurança de nossas casas e muitas outras lutas..
                                  - Deus pensou em tudo. disse a outra.Se ele cuida tão bem de nós, é claro que deve cuidar melhor dele que é humano.Veja aquela macieira, está carregada de frutos, veja este céu dourado, veja,quanta plantação, fartura, e o riacho, está cheio de peixes.
                                                                               

 Ele tem duas pernas grandes, dois braços fortes,  e ainda tem os monstros para ajudá-lo a colher. A outra deu uma risadinha irônica sabendo  dos tratores e das colheitadeiras que elas tanto temiam."Os monstros"
                                  -Será que ele quer morrer mesmo, ou não sabe agradecer à tantas riquezas que possui e fica se lamentando por alguns probleminhas corriqueiros?.
                                  -Vamos tentar ajudá-lo, quem sabe conseguimos fazê-lo despertar para a vida,  e assim saberemos se ele quer realmente morrer.
     
       Desceram rapidamente do banco, entraram cada uma pela boca da calça do homem chorão, e tascaram-lhe uma picada daquelas de doer até o cérebro.O homem saiu correndo, xingando grandes palavrões, sacudindo as calças, pedindo ajuda, imaginando ser um escorpião, ou até uma  cobra.
                                    ... E foi cuidar de suas feridas.

       As duas caíram da perna, meio amaçadas, mas rolaram no chão, de tanto rir ,e uma disse à outra.
                                   - É esse aí que queria morrer?
                                   - Mal aguentou  a dor provocada por duas formigas.


Lourdinha Vilela



As imagens foram retiradas do google.


  


                                           






                                                                                                 



                               

8 de julho de 2013

Café da manhã





Nessa manhã,
Olhando para o céu
Espero...
Hoje a névoa é densa
 Gotículas sobre folhas
Cristais liquefeitos
Embaçando a visão.



A lua distante, projetando-se ainda
Entre flocos de algodão
 É o meu primeiro presente
E ao céu minha serena gratidão.




A névoa agora se desfaz aos poucos
Com a força
Que insiste em ser
Mais uma linda manhã de sol.



Permaneço gelada no peitoril da janela            
Aquecida apenas pela sensação ardil
Do meu olhar invasor de paisagens tão belas,
 Espero...
Bola de fogo, gato manhoso, eis que surge o sol
Bem de mansinho, fazendo nascer colorido o dia
É o amarelo da manteiga no pão
O alaranjado no suco de mamão
Os riscos negros das folhagens na contraluz
Lembram-me o café...
O café da manhã no campo, que mais me seduz.

 Fotografia. Lú Vilela