Poesia

A Poesia alcança as fadas, encanta a chuva na madrugada, acompanha os ébrios nos dormentes e se mistura à solidão nas calçadas.

3 de março de 2013






                                                                   Imagem  Google                                                               

Augusto Cury


A maior aventura de um ser humano é viajar,
E a maior viagem que alguém pode empreender
É para dentro de si mesmo.
E o modo mais emocionante de realizá-la é ler um livro,
Pois um livro revela que a vida é o maior de todos os livros,
Mas é pouco útil para quem não souber ler nas entrelinhas
E descobrir o que as palavras não disseram...

Quando somos abandonados pelo mundo, a solidão é superável; quando somos abandonados por nós mesmos, a solidão é quase incurável.






                                               Paint - Lu Vilela


1 de março de 2013

Natureza

Edouard Frederic Wilhelm Richter


     Afastei folhas e flores secas e ocupei lugar no banco, sob o Ipê amarelo. Pude reconhecer cada recanto. Uma suave brisa, na sua dança de vai e vem, trouxe o cheiro do campo por entre as cabanas criadas pelos salgueiros enfileirados e levou até as margens do rio toda a  saudade  que  se desprendia de mim.  
Refeita estou agora, neste abraço que recebo da natureza.

Lourdinha Vilela.

20 de fevereiro de 2013

SE O MEU FUSCA FALASSE



Do Diário de Susan

 Fazia um frio intenso naquela tarde.

 Ana entrou no vestiário apressada. Olhou-se no espelho jogou um pouco de água no rosto. Tinha uma expressão alegre e curiosa. Escovava os cabelos, enquanto pensava surpresa na atitude do pai em ir buscá-la no colégio. Era primeira vez que isto acontecia.

 -Veste filha – disse estas palavras como um cumprimento.

  O pai trazia nas mãos, seu casaquinho vermelho de lã com gola branca.  Ana sabia ser aquela, uma ordem de sua mãe, sempre preocupada em protegê-la imaginando o óbvio.
  Não era muito dado a beijinhos e demonstrações carinhosas etc., mas era um bom pai dentro do possível, embora, sem corresponder totalmente às necessidades afetivas dos filhos. Ana já estava acostumada. A mãe cobria estas falhas em dobro, e a família seguia bem.

 - Vamos assistir a um filme? – perguntou.

Ana sentiu uma felicidade imensa e estranha, como quando na infância, imaginava a chegada do Papai Noel.

 -Qual filme pai? – perguntou, enquanto puxava o fecho do agasalho.

 -Surpresa!- Não contem não - Disse ele, dirigindo-se aos outros dois irmãos menores que também se encontravam ali.

 Seu pai, um taxista, se encontrava ainda uniformizado com uma camisa azul clara e uma calça social preta, bem surrados da noite e parte do dia de trabalho. Trazia uma alegria no semblante, algo que a menina nunca percebera antes, pois ele estava sempre murmurando e se queixando, hora pelo pouco dinheiro da praça, hora pelas dores que sentia na coluna.
 Os dias se sucediam dessa forma em sua vida.

Quase não tinha tempo para os filhos.  Mesmo assim, à noitinha trazia uns salgados deliciosos e sempre quentinhos de uma lanchonete muito conhecida na rodoviária local. Logo na entrada do portão de casa, atirava um salgado ao  cãozinho Mandrake que o aguardava fazendo festa. O nome do animalzinho foi copiado do personagem de um gibi que Ana gostava de ler.
 
  Ana também aguardava ansiosa, pelo pai, como se aquele gesto, ou seja, a entrega dos salgados que fazia diretamente em suas mãos, e também em especial, o sorriso que se abria em seu rosto, simbolizassem as únicas manifestações de afeto entre pai e filha. Era realmente um elo. O sorriso substituía abraços e palavras que raramente aconteciam e significava muito, como um sinal de amor.  Por conta disto, Ana não desistia de esperar por estes momentos, mesmo que por várias vezes se encontrasse sonolenta e mal saboreasse um salgado sequer.  Tudo era um grande pretexto para se aproximar um pouco mais do pai.

  No cinema, compraram pipocas, balas e chicletes. Havia um grande burburinho de vozes. Outras meninas pareciam desfilar enquanto buscavam lugares nas cadeiras entre os corredores. Ana sentia-se acanhada por não estar vestida adequadamente.

“Se o meu Fusca falasse”, na versão brasileira, filme americano de Walt Disney, era o grande sucesso do momento. Agora ela conseguia entender o interesse do pai na escolha do filme: o seu táxi era também um fusquinha.  Durante o filme, muitas risadas entre eles.  A liberdade de poder rir ao lado do pai, de ser ela mesma, sem medo, estabelecia confiança, amizade, e tantos outros sentimentos que brotavam naquela hora, em que ele, como se voltasse a ser criança, retorcia-se de tanto rir, sem se parecer em nada com o pai severo, fechado e às vezes repressor.
 Ao saírem do cinema, era como se o filme continuasse dentro do carro enquanto comentavam as melhores e mais engraçadas cenas, até chegarem a casa.

Passaram-se alguns dias.

 Ana, não entendia a personalidade do pai apenas imaginava que algo poderia estar acontecendo, ele andava mais calado ainda, ela porém preferia conservar a doçura do seu encontro com ele e os irmãos no cinema, e isso lhe trazia muita alegria. Claro que sonhava com outros passeios como aquele.  Neste dia entregou ao pai um recorte de revista com seus dados e uma carta para serem colocados no Correio. Queria fazer um curso técnico de pintura a distancia. Tinha muita tendência às artes plásticas e apesar da sua pouca condição financeira sabia que não iria desistir. Aquele seria só um pequeno começo até cursar uma faculdade. O pai, agora demonstrava uma tristeza profunda e um silêncio gritante, como se o mundo lhe estivesse pesando sobre os ombros. Colocou a carta no bolso direito da camisa e saiu.

Jamais retornou.

Julho, 1970.

 Naquela manhã, Ana encontrava-se sozinha em casa, a mãe teria saído com os filhos menores para o centro da cidade. No rádio ela ouvia a canção de Vincent Bell- Airport Love Theme.
 Notou um barulho de carro em frente  a casa. Chegou até a janela, puxou um pouco a cortina, e viu um carro de polícia estacionando. Voltou e abaixou o volume do rádio, sentindo no coração as batidas de um surdo. Logo os policiais se aproximaram com um papel na mão. Ana reconheceu o recorte de revista e a carta que entregara ao pai. O Policial se identificou e pediu a presença da mãe de ana ou de um adulto. Ana quase puxou os papéis das mãos do policial, imaginando muitas coisas.  A música no rádio agora era um fundo triste a embalar sua aflição.
 –Pode falar Senhor, eu sei, alguma coisa aconteceu ao meu pai. Falava movendo-se de um lado para o outro. O Policial pediu novamente a presença de um adulto.
  - Eu estou sozinha, mas tenho uma tia que mora aqui perto.
 - podemos ir até lá.  Disse Ana. E em seguida entrou no carro, na companhia dos policiais, sem hesitar.
Na casa da tia, Ana presenciou todo o discurso. Viu muitas lágrimas em seus olhos.  Soube então do gosto amargo da tristeza, do vazio e do fim.

 Em poucos dias o carro foi encontrado.

 O fusca bege e os sinais...

 Foi colocado na garagem e coberto por uma lona imensa.

 A ausência do pai tornou mais viva as suas recordações.        Imediatamente, em seu pensamento pode rever o filme, os risos, e a alegria.

A alegria...

O frio, o frio...

Uma interrogação a ser desvendada pela polícia era agora o único sentimento que a envolvia, e, a todos os seus familiares.

Ana chorava.

- Ah! Meu pai.Se o seu Fusca falasse...


Lourdinha Vilela



                            

 http://www.youtube.com/watch?v=Ng1aJtWcwlk


17 de fevereiro de 2013

CREPÚSCULO





Há um tanto de mim neste céu,
Quando me douro de sonhos
Ao desenhar poemas
sob o adormecer do sol.

Lú Vilela


Fotografia Lú
Palmital- MG.



8 de fevereiro de 2013

A CRISTALEIRA

                                                                           

                                                                           
                                                                           
                                                                           



À minha mãe




Na cristaleira,
 guardiã de saudades,
Volto e revejo os cristais.
Tão antigos e tão novinhos,
taças de água e de vinho.
Mergulho no espelho, no fundo,
 no fundo...
não me vejo,
vejo o carinho,
 o espelho limpinho,
refletindo o zelo,
a boa vontade.
Tempo e mocidade, ali escritos.
O casalzinho do bolo
no copinho azul de licor,
Ainda juntinhos dançam, a dança do amor.
 E uma nota sozinha, ainda restou,
Da canção cristalina que o tempo
não quebrou.

Lú Vilela