Poesia

A Poesia alcança as fadas, encanta a chuva na madrugada, acompanha os ébrios nos dormentes e se mistura à solidão nas calçadas.

12 de maio de 2012

CARÊNCIA- Layla e Salomão




Lia sentou-se na cadeira, toda branca, madeira maciça. Uma de seis que compunham o jogo da sala de jantar.  Ela amava estar ali sentada, quando conseguia uma folguinha dos seus afazeres domésticos.  Ficava olhando o vasinho de louça também branca, e suas violetas que ela cultivava com toda sua alma.  Aproveitava estes poucos instantes para folhear alguma revista, conferir as contas do mês e até mesmo rezar um pouco. Acima do aparador, havia um quadro do Sagrado Coração de Jesus. Muitas vezes se ajoelhava diante dele para fazer suas orações.  Precisava muito dessas orações.  Poderia estar na sala de visitas, naquele sofá confortável em frente TV, mas a sala de jantar era um lugar estratégico, de onde ela poderia ouvir o ruído do quarto mais próximo onde dormia sua filhinha de apenas dois anos, Layla.  A menina nascera com uma cardiopatia congênita, e alterou toda a rotina da família, sem contar o sofrimento. Eram muitas idas ao hospital, exames, tudo o que envolve um quadro grave de uma criança debilitada.  Precisavam manter uma Bala de Oxigênio em casa, para socorrê-la quando tivesse uma crise cianótica.  Lia deixou o trabalho, e teve que dedicar praticamente vinte e quatro horas diárias à sua linda filhinha de olhinhos azuis, cabelos lourinhos e cacheados, mas que, por causa da insuficiência cardíaca não conseguia andar.

O outro filho de Lia tinha entre cinco e seis anos de idade. Claro que lhe era dedicado todo o amor dos pais, mas também é claro que ele absorvesse todo aquele sofrimento e luta, e embora não percebesse ou não percebessem, foi um pouco deixado de lado por força de toda esta situação. Era sempre o segundo a receber a atenção da mãe na hora das refeições, do banho. Mas parecia entender tudo sem demonstrar ciúme. Apenas muito calado, ficava aguardando que as coisas lhe favorecessem mais.


 A família contava com o apoio dos avós paternos e a avó materna que conseguiam minimizar a situação por vezes muito triste, quando Layla precisava ser internada e Lia se ausentava por dias de seu lar e infelizmente do convívio com o filhinho. Salomão era o seu nome, apelidado de Sal ficava sob os cuidados dos avós que faziam de tudo para suprir estas ausências.

Em uma destas tardes mais calmas em que se encontrava em casa, Lia percebeu uma movimentação diferente no comportamento do filho e ficou aguardando os fatos. Sal pegava roupinhas na gaveta da cômoda do seu quarto e as colocava na malinha que lhe foi dada de presente ainda quando estava na barriga de sua mãe.  Era para guardar o seu enxoval.  Esta malinha estava na família já há algum tempo, passando de uma grávida para outra.  Uma espécie de relíquia embora pouco usada, já que  em tempos modernos os  enxovais  de bebês recebem  todo um aparato especial, levando-se em conta a concorrência comercial, que deixam os pais loucos, pois as ofertas são tentadoras dado à qualidade e beleza .

Sal passou na frente de sua mãe com sua malinha pesada. Saiu pela porta da cozinha e deu a volta no quintal. Lá dentro Lia escutou alguém que batia na porta da sala. Ficou curiosa, pois ninguém havia tocado a campanhinha.  Achou que se tratasse de Sal inventando alguma brincadeira. Como toda mãe, colocou em prática seu sexto-sentido.
Abriu a porta e recebeu o filho de braços abertos- Oi meu queridinho quanto tempo, estava com tanta saudade de você.  Lia dizia isto abraçando e beijando seu filhinho, participando da sua brincadeira.  Levou-o  pra cozinha agarrado em seu pescoço e lhe fez um lanche bem gostoso com tudo o que ele adorava comer. Não deu meia hora, o menino repetiu tudo e outra vez  ela abriu a porta e o recebeu com abraços e beijos. Só não ofereceu lanche. E assim se sucederam umas cinco vezes. Até que Lia, um pouco cansada da brincadeira pediu ao filho que fosse brincar com outras coisas que ela tinha que cuidar da Laylinha que já estava acordada.

No dia seguinte, Sal começou tudo de novo, quase no mesmo horário. No começo  a mãe aceitou a brincadeira, mas depois estando exausta e até mesmo preocupada resolveu parar.  Na mesma hora o menino, demonstrou seu descontentamento, pedindo à mãe que brincasse mais.
- Meu filho arruma outra brincadeira – disse Lia.
-Não mãe, vamos, só mais um pouco. Dizia o menino com os olhinhos cheios de lágrimas.
– Você não enjoa não, Sal. Porque insiste nesta brincadeira? Chega já  me cansei.

O menino cansou-se também de insistir e foi ficar lá na soleira da cozinha. A mãe meio que sem entender, mas com um pouco de pena sentou-se ao seu lado, pegou o rostinho dele com as mãos e falou:
- meu filho por que você gostou tanto desta brincadeira e não quer parar mais?  Eu estou muito ocupada e você deve entender que tem hora para tudo, até para brincar.  E Sal olhando timidamente para a mãe respondeu:
 -Não mãe, não queria brincar nãaaao, mãnheeeê. Só queria que você, me desse um abraço. Falou Sal, na sua linguagem de criança.
Lia  mais uma vez abraçou o filho com muito carinho e compreendeu toda a sua carência e seu sofrimento.


                                                        FIM


lourdinha Vilela.


Quantas vezes deixamos  de abraçar nossos filhos, de beijar, por estarmos muito ocupadas com outras coisas de menor importância.
Carinho é a base de tudo. É para ser demonstrado a cada instante.
Tudo se constrói e se reconstrói com amor.
Já beijou e abraçou seu filho hoje? Talvez ele esteja precisando da sua iniciativa para se tornar também uma pessoa carinhosa e te cobrir de abraços e beijos neste dia das mães.



                                       FELIZ DIA DAS MÃES




                                                                            



11 de maio de 2012

OLHOS DO CORAÇÃO DE MÃE


Neste dia das mães,
gostaria de receber
de  presente:
“Óculos”
-De sol?
-Não
Uns bem diferentes,
Que tivessem lentes
De longo alcance
Com extra  poderes
Que me permitissem ver
onde e como
meus filhos se encontram.
Se ainda fossem crianças,
eu os protegeria das tomadas
dos inseticidas, dos desinfetantes
Dos  tombos e assombros
Que apenas mãe
Sabe o quanto doem. 
Sem contar os vírus,
bactérias, febres e
e tudo o mais.

Mas eles cresceram.
São jovens, e acham-se,
donos do mundo,
e o  querem abraçar.
A noite é traiçoeira!
Devo ficar em alerta
Pra depois não chorar.

Então, os óculos teriam
uma espécie de raio X,
e por dentro
do coração dos meus filhos
eu poderia olhar.
Sentir seus anseios,  angustias
seus medos,
e assim,
 melhor ajudar,
embora eles odeiem!
E querem, mesmo arriscando-se
O gosto de, o mundo experimentar.
A  liberdade pra viver
O direito de sonhar.

E como é impossível
Estes óculos ganhar
Venho pedir ao Senhor meu Deus
Que tem olhos
superiores ao meus
que salve os meus filhos
E jamais permita que eles sofram
Como sofreu o seu.


Lourdinha Vilela

9 de maio de 2012

Cidades.



Vejo cenários nas ruas. São crianças, com pezinhos descalços, jovens, velhos dispostos nas calçadas com expressões de lamento. Cenários escuros e silenciosos.
Muitas vezes nos sentimos assim também, abandonados, desconsolados, vazios e entorpecidos por algum sentimento de dor. Porem chegando à nossa casa tomamos um banho quente, ouvimos música, conversamos com alguém e tudo passa e muda. Nas ruas o cenário não muda e aquelas pessoas continuam lá. Fazem parte do ambiente, rodeadas por vitrines luxuosas.  Imagino a cidade como um corpo que tem alma. A parte externa está bem, protegida da chuva, do frio, do calor, mas a alma está triste, na sarjeta. Nossa cidade é um corpo, corpo e alma. Sua parte física são os prédios, casas, carros, somos nós que temos emprego, um teto, estabilidade e identidade. Sua alma são mendigos, drogados, transeuntes do infortúnio, jogados à própria sorte, figuras de um quadro onde a moldura é de ouro e a pintura está ruindo, se desgastou pelo sofrimento e intempéries. Precisa de restauração. Continuamente passamos e verificamos que a alma da cidade está triste, sem abrigo ou consolo, e apenas passamos, nos omitindo, com medo de nos aproximar um pouco mais dessa realidade e oferecer ajuda concreta. Somos espectadores e nos preocupamos mais com a moldura, afinal ela enriquece e valoriza a obra, mesmo que o tema seja esse, desolador e triste. Hoje porem, fiquei com medo de nada fazer, de perder o elo que me faz semelhante Àquele Restaurador Divino no qual acredito e acreditam essas pessoas, possa os cobrir com tinta nova.

Lourdinha Vilela

6 de maio de 2012


Paira sobre mim 
um constante risco
cada vez que te ausentas...
Posso me afogar
em lágrimas

Lourdinha Vilela

DENTRO DO LIVRO
PÉTALA SECA
RESQUICIO MATERIAL
 DO AMOR
DE OUTRORA
DENTRO DO PEITO
 AINDA
O AMOR
 ATEMPORAL
QUEIMA E ARDE
 AGORA.

Lourdinha Vilela